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| Consequências |
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Giuseppe Oristanio
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Eu gosto de livros e sebos. Adoro me embrenhar em sebos desse Brasil afora e me perder entre as estantes buscando coisas interessantes, sejam obras importantes, sejam coisas estranhas e bizarras. O mundo editorial, para o bem e para o mal, oferece coisas do arco da velha. Já comprei livros de um século, sobre assassinatos, já comprei manual de etiqueta dos anos 40. Enfim, há um prazer pelo conteúdo, mas o objeto-livro também me atrai muito. Estou divagando, como é meu hábito; começo a falar de futebol e, de repente, me vem um filme, de repente uma receita... Deixe-me voltar ao essencial deste caso.
Sempre que compro um livro, seja um novinho – numa livraria - , seja um livro desses usados – no sebo - , tenho o hábito de assinar e datar na primeira ou segunda página, (ali onde vão as informações de edição: tradutor, editora, ano... e o título). Há vezes em que analiso a situação e assino duas vezes, em dois lugares diferentes. Tudo porque tenho ciúme dos livros e procuro me cercar de todas as maneiras para o caso de perder ou ser roubado por aquele amigo que acha que emprestado é dado. Assino duas vezes para lembrar ao larápio quem é o dono e para desestimular o cidadão a simplesmente arrancar a página assinada e esquecer. Eis que divago novamente.
Pois bem: há vezes em que simplesmente compro o livro, deixo na estante e só vou mexer com ele muito tempo depois. É nessa hora que percebo que não assinei, que esqueci. Nesse momento, tenho necessidade de assinar, mas isso não basta, preciso lembrar-me da data, onde foi, como... Nem sempre consigo me lembrar, então invento uma data e coloco lá.
Isso acaba de acontecer e eu precisei escrever isso para me livrar da sensação de farsa.
Estou no Aeroporto Santos Dumont, esperando para ir para São Paulo, como tenho feito nas últimas semanas. Antes de sair de casa, passei pela estante e peguei um Rubem Braga. O Verão e as Mulheres. Eu, muitas vezes, leio repetidamente o mesmo livro, mas esse Rubem Braga me pareceu sem uso na estante. Agora, aqui no aeroporto, peguei o livro para suportar o atraso trivial das sextas-feiras e percebo que esse foi um livro que esqueci de assinar. Estava aqui, nas minhas mãos, virgem de leitura e assinatura. Peguei a caneta e num gesto rápido assinei. E a data, e o local? Onde foi que comprei esse Rubem Braga. Numa breve olhada descobri a etiqueta metálica e reluzente do Sebo Capricho, de Londrina.
Londrina, Londrina... Estive em Londrina algumas vezes, mas comprei quando esse Braga, comprei quando? Sem vacilar, dei uma mentida básica e taquei ali: abril de 2006, não sem antes verificar a data da edição para não colocar uma data posterior à impressão. Há que se mentir com certa dose de substância.
Sempre julguei sem importância esse mentira inocente, mas hoje me ocorreram pensamentos horríveis: e se me acontece alguma coisa grave, e se sou acusado de assassinato e preciso provar minha inocência? E se roubaram um banco em Londrina em abril de 2006 e me torno suspeito? E se me interrogam: onde o senhor estava em abril de 2006? Eu direi que não faço idéia, mas o investigador que esteve com mandado de busca em minha casa e recolheu coisas, saca o livro do Braga da sacola e me aponta, abrindo a capa: o senhor esteve em Londrina em abril de 2006, sim senhor, e a prova é essa. Sua própria assinatura é prova contra o senhor, meu amigo. É melhor o senhor confessar que roubou os 112 milhões da Caixa Econômica. Vai nos poupar tempo.
E eu, inocente inocente, grito que inventei a data, que estive mesmo em Londrina, mas não faço idéia do mês e nem do ano em que comprei o livro, que nunca foi crime visitar a linda Londrina, mas de nada adiantam meus apelos. Tomo uns cinco tabefes e sou levado algemado para uma cela, onde aguardarei julgamento por uns 5 anos. Depois desse período me tornarei um ser esquálido. Vou a júri e sou condenado a 30 anos de prisão e execrado por meus filhos e pela sociedade.
Então, hoje, aqui no aeroporto, largo o laptop onde escrevo essa crônica e, na segunda página do livro do Braga, bem abaixo da assinatura e do dito abril/2006, acrescento, entre parênteses: (eu invento!)
E o ato de confessar me trouxe certa paz.
E esta crônica eu dato agora, para não ter que inventar depois: Aeroporto Santos Dumont, Rio de Janeiro, 28/agosto/2009. Dia no aniversário da Bárbara, que me deixou em foi morar em Copenhagen. |
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